
Não é de hoje que se tem notícia de jogadores brasileiros que deixaram seu país em busca da tão desejada estabilidade financeira no mundo do futebol. Não são poucos os casos de atletas que preferem o ‘anonimato’ em países onde o futebol, digamos, ainda não mereceu o devido destaque pela imprensa internacional, apesar de seu nível de organização e, principalmente, do elevado nível de satisfação de quem demonstra não sentir tanta saudade assim do Brasil.
É o caso do meia esquerda Arnaldo de Brito Neto, jogador alagoano de apenas 19 anos de idade, natural da pequena São José da Laje, no Agreste do Estado. Netinho, como é mais conhecido, trocou o ‘sucesso’ no país de origem por um bom salário bem longe daqui. Há quase dois anos, o jogador defende as cores do Al Lakhwiya, time que subiu à primeira divisão do campeonato nacional do Qatar e que pertence ao príncipe Tameem Bin Hamad Al-Thani. Netinho tem contrato com o recém-fundado, mas milionário clube, por mais um ano e meio, com multa rescisória que beira os R$ 11 milhões.
As cifras que movimentam o futebol são de encher os olhos. Incrível como a realidade do esporte é bem diferente no outro lado do mundo – ao contrário do que se acostumou a ver por aqui, onde os clubes se apresentam como eternos reféns das rendas das partidas ou de uma migalha de patrocinadores (e se passarmos ao Nordeste, aí é que a coisa fica feia, com nossas agremiações sobrevivendo de apoios isolados, advindos de interesses políticos que costumam vir à tona somente de quatro em quatro anos).
É por isso que promessas do nosso esporte, aqui formadas, deixam cada vez mais cedo o país, sequer chegando a defender um clube local. Foi o caso de Netinho, que, em Alagoas, atuou apenas pela Escolinha Zumbi dos Palmares, com quem participou do Campeonato Infantil Sesi/TV Gazeta, o trampolim da curta, mas já promissora carreira.
Inicialmente até duvidei do currículo do meia-esquerda. Afinal, com apenas 19 anos, já passou por tantos clubes que, não fosse a idade, até poderíamos dizer que ele já estaria, se assim desejasse, próxima da aposentadoria. Já atuou no Vasco da Gama, Santos, Serra Gaúcha-RS e Internacional, onde logo realizou o sonho de jogar na Europa, transferindo-se para a Itália, onde defendeu as cores da Roma e da Lazio.
Pouco tempo depois, ainda adolescente, foi negociado junto ao Wolfsburg – time alemão onde hoje atua jogadores como o atacante Grafite, convocado pelo técnico Dunga para defender a Seleção Brasileira na Copa da África. Em 2008, voltou ao Brasil para se profissionalizar, aos 17 anos, pelo time do Caxias-RS, retornando para a Europa logo em seguida, onde jogou pelo Borussia Dortmund, outro tradicional time da Alemanha.
Já com 18 anos, veio-lhe a glória, já que Netinho fora convidado para uma excursão no Qatar, acompanhado de outros 17 jogadores brasileiros. O garoto se esforçou ao máximo, vendo que aquela poderia ser a chance de sua vida – assinando um contrário milionário, apesar do ‘apagado’ futebol daquele país –, chamando a atenção do tal príncipe. Resultado: foi o primeiro contratado, transformou-se na estrela da equipe que, formada há pouco mais de um ano, já conseguiu o acesso à primeira divisão do certame nacional.
E como era de se esperar, Netinho – com quem conversei no mês passado, quando gozava férias em Maceió – não tem, por ora, a mínima intenção de retornar ao Brasil, apesar das dificuldades para adaptação a uma cultura tão diferente (por lá as mulheres andam de burca e desrespeitá-las pode até render pena de morte). Quer juntar uma bela grana na Ásia – onde tem aproveitado bastante o restinho da adolescência, divertindo-se à beça com seu Jet Ski – para, daqui a alguns anos, conquistar um lugar ao sol no futebol europeu. No último caso, informou, retornará ao Brasil para, em um clube de médio porte, buscar holofotes para uma nova e milionária transferência.
Como tudo no Qatar esbanja riqueza advinda da exploração do petróleo, que a tornou uma nação mais que desenvolvida, mais que compreensível o pensamento do jovem talento alagoano. E não é só Netinho quem decidiu viver tão longe para ficar rico; também estão atuando no país alguns consagrados jogadores brasileiros, como o atacante Araújo (ex-Goiás) e os meias Felipe (ex-Vasco da Gama) e Juninho Pernambucano (com passagem pelo Vasco e pelo Lyon, onde conquistou vários títulos no futebol francês), entre outros craques de demais nacionalidades.
Se conseguíssemos segurar por um pouco mais tempo atletas como Netinho, certamente estaríamos numa condição um pouco melhor, já que a saída continua sendo investir nas categorias de base.